O povo que sonha com cargos públicos
February 4th, 2009Para evitar ser mal interpretado, antes de tudo um disclaimer: eu já conheci e tive contato profissional com vários profissionais de órgãos públicos que realmente gostam do que fazem, buscam resultados e progresso na carreira. Eu gostaria muito que todos ingressassem nos órgãos públicos com esses objetivos, mas infelizmente isto está longe de ser verdade.
Recentemente tive algumas conversas sobre a situação do Brasil, do Rio de Janeiro, e diversos aspectos inerentes aos conhecidos problemas que temos. Não vou falar sobre nossos problemas em geral, mas um sintoma em particular me chama muita atenção.
É óbvio que não possuo nenhuma estatística sobre isso, mas é impressionante a quantidade de pessoas no Brasil que sonha, almeja intensamente um cargo público. É uma febre tão grande que já podemos considerar estabelecida a profissão de “Estudante para concurso”. Além de existir a profissão, existe todo um mercado em torno disso, com cursos, livros, sites, etc. No metrô do Rio é sempre possível ver placas publicitárias de enorme destaque fazendo propaganda de cursos para concursos.
Por que eu acho que esse sintoma é negativo? Porque no Brasil notoriamente conhecemos a baixíssima eficiência de órgãos públicos. A prestação de serviços por parte da máquina estatal é precária comparada com os níveis necessários para sobrevivência na maioria dos setores da iniciativa privada. A máquina estatal gigantesca onera pesadamente a sociedade brasileira, que paga cada vez mais impostos para receber péssimos serviços em troca.
Que a máquina estatal está cheia de “companheiros” pendurados, todos sabemos. O que me preocupa bastante é a quantidade enorme de pessoas que almeja “ter a vida mansa de um cargo público”. As regalias de receber o mesmo salário desempenhando bem ou mal as suas funções. A certeza de poder faltar ao trabalho e fazer greves sem receber nenhuma punição. Resumindo, muitas pessoas querem impôr custos à sociedade oferecendo muito pouco em troca.
Não sei dizer quantas milhares de vezes alguém me perguntou:
- “Vai ter o concurso X, você vai fazer?”
- “Não”, respondo eu
- “Você é maluco, vai perder a chance de uma mamata dessas??”
- “Sim, eu não quero fazer nenhum concurso”, finalizo minha resposta pela enésima vez.
Eu estudei 7 anos no Colégio Militar (federal), e depois fiz Engenharia na UFRJ (também federal), e pude ter nesse tempo bastante contato com funcionários públicos. A última coisa que eu gostaria para a minha carreira é depender de politicagens para ter sucesso. Nestes meios existe tanta sujeira, corrupção e falta de ética que eu prefiro definitivamente ficar alheio a isso. (OBS: sei que isso não envolve todos, e prefiro crer que não seja nem a maioria, mas o nível de contaminação que eu percebo já me enoja)
Por felicidade eu trabalho em um ambiente no qual predomina a meritocracia de fato. A Concrete é uma empresa (como muitas outras) que precisa se sustentar. Não existe “patrocinador”, “investidor” ou “controlador” que coloque dinheiro na empresa. Com isso, as decisões precisam ter discernimento para que a empresa caminhe na direção certa e traga bons resultados financeiros e conforto aos sócios e aos funcionários. Este é o cerne da questão. Onde há necessidade de compromisso com resultados diretos, há muito menos espaço para politicagens, e naturalmente a dedicação, esforço e talento são premiados. Em locais onde os resultados implicam em pouca ou nenhuma diferença para o profissional, temos o comodismo e a postura que todos conhecemos bem.
Eu vou começar a apostar no Brasil quando eu começar a ver menos gente sonhando com a “vida mansa de um cargo público”. Quando eu souber que os governos estão enxugando a máquina pública e deixando-a mais barata e mais eficiente. Quando nossa legislação der os mesmos direitos e deveres à iniciativa privada e aos funcionários públicos. Quando eu perceber que as pessoas estão buscando competitividade profissional, em vez de se livrar da competição.
Enquanto isso não acontecer, eu não aposto no Brasil. Mas já vou ficar contente se as pessoas não me olharem espantadas quando souberem que eu não quero fazer concurso público.