Para evitar ser mal interpretado, antes de tudo um disclaimer: eu já conheci e tive contato profissional com vários profissionais de órgãos públicos que realmente gostam do que fazem, buscam resultados e progresso na carreira. Eu gostaria muito que todos ingressassem nos órgãos públicos com esses objetivos, mas infelizmente isto está longe de ser verdade.
Recentemente tive algumas conversas sobre a situação do Brasil, do Rio de Janeiro, e diversos aspectos inerentes aos conhecidos problemas que temos. Não vou falar sobre nossos problemas em geral, mas um sintoma em particular me chama muita atenção.
É óbvio que não possuo nenhuma estatística sobre isso, mas é impressionante a quantidade de pessoas no Brasil que sonha, almeja intensamente um cargo público. É uma febre tão grande que já podemos considerar estabelecida a profissão de “Estudante para concurso”. Além de existir a profissão, existe todo um mercado em torno disso, com cursos, livros, sites, etc. No metrô do Rio é sempre possível ver placas publicitárias de enorme destaque fazendo propaganda de cursos para concursos.
Por que eu acho que esse sintoma é negativo? Porque no Brasil notoriamente conhecemos a baixíssima eficiência de órgãos públicos. A prestação de serviços por parte da máquina estatal é precária comparada com os níveis necessários para sobrevivência na maioria dos setores da iniciativa privada. A máquina estatal gigantesca onera pesadamente a sociedade brasileira, que paga cada vez mais impostos para receber péssimos serviços em troca.
Que a máquina estatal está cheia de “companheiros” pendurados, todos sabemos. O que me preocupa bastante é a quantidade enorme de pessoas que almeja “ter a vida mansa de um cargo público”. As regalias de receber o mesmo salário desempenhando bem ou mal as suas funções. A certeza de poder faltar ao trabalho e fazer greves sem receber nenhuma punição. Resumindo, muitas pessoas querem impôr custos à sociedade oferecendo muito pouco em troca.
Não sei dizer quantas milhares de vezes alguém me perguntou:
- “Vai ter o concurso X, você vai fazer?”
- “Não”, respondo eu
- “Você é maluco, vai perder a chance de uma mamata dessas??”
- “Sim, eu não quero fazer nenhum concurso”, finalizo minha resposta pela enésima vez.
Eu estudei 7 anos no Colégio Militar (federal), e depois fiz Engenharia na UFRJ (também federal), e pude ter nesse tempo bastante contato com funcionários públicos. A última coisa que eu gostaria para a minha carreira é depender de politicagens para ter sucesso. Nestes meios existe tanta sujeira, corrupção e falta de ética que eu prefiro definitivamente ficar alheio a isso. (OBS: sei que isso não envolve todos, e prefiro crer que não seja nem a maioria, mas o nível de contaminação que eu percebo já me enoja)
Por felicidade eu trabalho em um ambiente no qual predomina a meritocracia de fato. A Concrete é uma empresa (como muitas outras) que precisa se sustentar. Não existe “patrocinador”, “investidor” ou “controlador” que coloque dinheiro na empresa. Com isso, as decisões precisam ter discernimento para que a empresa caminhe na direção certa e traga bons resultados financeiros e conforto aos sócios e aos funcionários. Este é o cerne da questão. Onde há necessidade de compromisso com resultados diretos, há muito menos espaço para politicagens, e naturalmente a dedicação, esforço e talento são premiados. Em locais onde os resultados implicam em pouca ou nenhuma diferença para o profissional, temos o comodismo e a postura que todos conhecemos bem.
Eu vou começar a apostar no Brasil quando eu começar a ver menos gente sonhando com a “vida mansa de um cargo público”. Quando eu souber que os governos estão enxugando a máquina pública e deixando-a mais barata e mais eficiente. Quando nossa legislação der os mesmos direitos e deveres à iniciativa privada e aos funcionários públicos. Quando eu perceber que as pessoas estão buscando competitividade profissional, em vez de se livrar da competição.
Enquanto isso não acontecer, eu não aposto no Brasil. Mas já vou ficar contente se as pessoas não me olharem espantadas quando souberem que eu não quero fazer concurso público.
Assino embaixo.
Realmente. A última coisa que eu gostaria para a minha carreira.
Com conhecimento de causa
Eu também não penso nessa opção para minha carreira. Com tudo isso que você falou ainda tem o agravante de você entrar num lugar desses e “morrer” para as novas tecnologias que aparecem. Muitas vezes esses orgãos não estão preocupados em mudar suas tecnologias, é sempre a mesma postura de não mexer no que esta quieto.
Realmente é triste as pessoas quererem cargos públicos pensando somente na vida mansa.
Acho que vou estudar pra ser agente federal!!! \o/
Aham? Alguém falou em serviço secreto? uhauhauha
(Ok, ok… desconsiderem… febre 24h)
Hmmm… Nem se empresa pública for como o Serpro, que paga bem e é CLT?
@Marcelo
Realmente as coisas são muito mais lentas. Normalmente quem entra em uma situação dessas só consegue se manter atualizado se tiver ocupações além do trabalho. E isso é uma realidade para muitos funcionários públicos, que muitas vezes têm 2 ou mais fontes de renda.
@Leandro
Boa sorte
Mas na verdade, eu não estou dizendo que não existem cargos públicos interessantes. No meio jurídico por exemplo existem linhas de atuação que só podem ser alcançadas através de concursos, como a magistratura, promotoria, etc. Este tipo de trabalho pode genuinamente atrair o interesse de muitas pessoas. Até aí tudo bem, não vejo nada errado.
O principal problema é que a maioria das pessoas quer “qualquer cargo público que pague bem, trabalhe pouco, e não tenha risco de perder o emprego”. E claro, muitos querem a aposentadoria integral, que é uma das coisas que eu acho mais injustas entre os benefícios destes cargos.
A previdência nacional é severamente deficitária, mesmo tendo uma sociedade muito mais jovem que as dos países mais evoluídos. Se continuarmos neste caminho, quando o Brasil tiver uma sociedade mais velha, trabalharemos só para pagar aposentadoria.
@Charles
Não conheço bem o Serpro, então não posso te afirmar. Mas se a estrutura de gestão envolver indicados políticos, cargos de confiança, etc, eu passo longe!
Concordo em parte com o seu pensamento.
Mesmo o Estado sendo algo gigantesco que cada vez mais “suga” nosso dinheiro através de impostos, ele é bastante necessário e sou a favor de concurso para aprovação de pessoas capacitadas, pois se não for através de concursos, tudo iria girar em torno de indicações (algo que não dá certo aqui no Brasil de jeito nenhum).
O grande problema é que as pessoas estão atrás de uma aprovação em um concurso público tem a mentalidade completamente distorcida. Acham, como você mesmo citou, que vão ganhar bem, trabalhar pouco e não vão perder o emprego, quando na verdade deveriam prestar um serviço de qualidade excelente, já que estão trabalhando para a sociedade como um todo.
O grande problema disso tudo é a mentalidade e cultura do povo brasileiro de uma forma geral, que sempre quer tirar vantagem de tudo e ficar dependurado em algo.
Vocês não sabem o que eu tenho passado!!! Me casei com uma garota que é filha de pais funcionários públicos… o tempo todo fico escutando que tenho que fazer concurso público, pois se não não vou conseguir descansar… E falo o seguinte agora eu quero trabalhar e não descansar!!! Que coisa!
@Rafael
Na verdade nós concordamos plenamente. É óbvio que eu prefiro que a forma de seleção dos cargos seja através de concurso. Se não fosse, a máquina estatal estaria bem pior do que já está. Felizmente muita gente boa entra para cargos públicos.
O maior problema é sem dúvida a mentalidade de grande parte dos candidatos, como você falou. A raiz do problema está no fato de que eles não podem ser demitidos, somado ao fato de que não há cobrança de resultados. Isso faz com que a máquina estatal custe muito caro, e preste serviços de má qualidade à sociedade.
Bruno, esta imagem – ruim – do serviço público vem exatamente da época em que não havia concurso e as vagas eram preenchidas por indicação.
Graças a esta corrida por vagas em cargos públicos, a qualidade dos serviços prestados está melhorando pela elevação da qualidade do novo pessoal, pois só os melhores conseguem passar. Estes, comumente, não são acomodados e são diferentes dos antigos funcionários. É muito comum ver, na UFPB, conflitos entre os novos e velhos funcionários, principalmente, quando os velhos indispõem-se a trabalhar.
Pena que ainda teremos, pelo menos, mais uma geração pela frente para ficarmos livres dos atuais parasitas.
@Alan
Tomara que você esteja certo. Até acho que isso é verdade em parte, mas também tem muita gente nova querendo amarrar o bode cedo mesmo. Torço muito para ver o dia em que a máquina estatal deixará de ser um fardo pesado e contribuirá ativamente para nosso desenvolvimento.
Bruno, mais uma vez seu post foi perfeito. Concordo totalmente contigo e meus ouvidos tb doem bastante quando ouço pessoas falando que vão fazer concurso público pra arrumar um empreguindo faz nada.
Grande abraço
Assunto polêmico Bruno, e concordo com você.
Tenho certeza que muitos que prestam concursos estarão aqui defendendo seus pontos. Mas sabemos que muitos deles [espero que não a maioria] simplesmente procuram a falsa-estabilidade-financeira.
Eu não tenho qualquer interesse nos órgãos públicos [nem mesmo quando terceirizado, muito menos concursado], eu ainda pretendo continuar na iniciativa privada por muitoooo tempo.
E o que mais me doi é quando ouço profissionais falando “Salário gordo, vários benefícios e o melhor, pouco trabalho” ou mesmo quando ouço certos tipos de conselhos como “Cara, termina tua faculdade e faz concurso”.
Enfim, excelente post.
@Emerson/Ponte,
esse que é o problema mesmo. Os que querem arrumar emprego pra amarrar o bode e não fazer mais nada. Eu já conheci vários profissionais que trabalham em órgãos públicos que tinham muita vontade de produzir e muita iniciativa, mas fico com pena deles, pois muitas vezes devem acabar frustrados pelas limitações impostas pelo ambiente.
Eu acho que o marco decisivo seria fazer com que eles trabalhassem pela CLT da mesma forma que a iniciativa privada, e que a aposentadoria fosse a mesma da iniciativa privada. Com estas 2 medidas os órgãos públicos seriam vistos de forma semelhante à iniciativa privada, e provavelmente menos pessoas fariam os concursos querendo se encostar na sombra.
Parabéns Bruno… compartilho da mesma opinião.
Assino e replico o seu texto que tb é minha opnião.
_o/
RESPEITO SUA OPINIÃO. MAS EM UM PAÍS QUE OFERECE POUCO EMPREGO E MUITA MISÉRIA A SAÍDA PARA A MAIORIA É SER CONCURSADO. QUEM Ñ QUER TER ESTABILIDADE? AFINAL, UMA EMPRESA PRIVADA A QUALQUER MOMENTO PODE SOFRER ALTERAÇÕES QUE ,GERALMENTE, PREJUDICAM OS MENOS CAPACITADOS EM RELAÇÃO AO NÍVEL ESCOLAR. OS CARGOS PÚBLICOS OFERECEM VAGAS PARA TODOS OS NÍVEIS. E NÃO É QUALQUER UM QUE PASSA. NA MAIORIA DAS VEZES É NECESSÁRIO FICAR ANOS ESTUDANDO PARA UM DETERMINADO CARGO.
LÓGICO, EXISTEM AQUELES CARGOS EM QUE AS PROVAS SÃO MERAMENTE “PEIXADAS” PARA QUE OS ANTIGOS EFETIVOS SEJAM CONCURSADOS. MAS OS CONCURSOS COMO TRIBUNAIS, RECEITA, MINISTÉRIOS, ENTRE OUTROS, É NECESSÁRIO UM NÍVEL ELEVADO DE ESTUDO, EM QUE NÃO É QUALQUER UM QUE ENTRA, DEVE HAVER DEDICAÇÃO.
E QUEM ACHA QUE É “UMA VIDA MANSA” , SE ENGANA PROFUNDAMENTE. PRINCIPALMENTE POR OUVIR OPINIÕES CONTROVERSAS DE QUEM NÃO CONHECE A VIDA DE UM AGENTE PÚBLICO.
A MENTALIDADE DAS PESSOAS, LÓGICO, É UM PROCESSO NATURAL, CULTURAL E ANTROPOLÓGICO EM RELAÇÃO À ISSO.
O BRASIL É UM PAÍS SUSTENTÁVEL, PORÉM O QUE Ñ O DEIXA SER CONSIDERADO COMO DESENVOLVIDO É O -MAU- CARÁTER POLÍTICO ,DE TODOS OS POLÍTICOS.
SOMOS UM PAÍS LENTO, TANTO NA ESFERA PÚBLICA QUANTO NA ESFERA PRIVADA. O QUE DIFERE UM DO OUTRO É A BUROCRACIA DEVIDO A ENORME QUANTIDADE DE LEIS EXISTENTE NESTE PAÍS.
E CASO VOCÊ CONHEÇA ALGUM PROCESSO ILÍCITO OU IRREGULAR, VÁ AO MINISTÉRIO PÚBLICO, OU EM ALGUM ÓRGÃO RESPONSÁVEL, AFINAL, ELES EXISTEM ,TAMBÉM, PARA QUE SE FAÇAM DENÚNCIAS. E VC ACREDITE OU NÃO, ELES AGEM SE RECEBEREM DENÚNCIAS.
SE VOCÊ Ñ EXERCE SEUS DIREITOS, NÃO RECLAME DOS “CONCURSOS PÚBLICOS”.
APESAR DA ESTABILIDADE, OS IMPROBOS EM ALGUM MOMENTO RECEBEM PUNIÇÃO.
só pra lembrar…
muitas das grandes empresas do Brasil sonegam impostos.
e fica a cargo do auditor- fiscal da receita não deixar isso acontecer.
de uma coisa vcs podem ter certeza, um grande suborno em dinheiro de muitos mil que essas empresas oferecem aos fiscais não vale os anos de estudo para alcançar esse cargo. e vale menos ainda, o caráter de agente público correto.
se alguém que acessar este artigo desejaeste cargo, peço a Deus que você não passe.
porque o que as empresas ricas não pagam, acaba saindo do bolso dos cidadãos.
A desorganização do cespe é uma brincadeira, não consigo ver se eu passei no concurso.
Como é bom saber que não estou sozinha neste barco… Eu também não tenho a mínima vontade de ser funcionária pública. Já andaram até me ofendendo por defender esta opinião, mas eu não mudo! Gosto de trabalhar na iniciativa privada.